19 Maio | DOMINGO | 21h30
Local: Teatro da Politécnica
Manhã

Processo Criativo
O espectáculo geral Manhã partiu de uma indagação baseada nos textos e testemunhos da cultura popular portuguesa, para encontrar uma imagem de mulher dotada de contornos complexos, muitas vezes antagónicos, mas inevitavelmente dotados de uma força criadora que a transforma em algo que a transcende. No imaginário popular, as misteriosas mouras encantadas convivem com as mulheres reais que dão a força que não têm para dar constância e solidez à vida. A mulher que é símbolo de fertilidade é também quem dá corpo à personificação da morte. A mulher divina e virgem, que redime e ampara com a sua pureza, convive com as mulheres pagãs, adúlteras, perdidas, sedutoras, conhecedoras de todas as manhas que irresistivelmente nos fazem perder. No colo de uma mulher tanto se encontra o perigo como se acha abrigo; das suas mãos tanto vem o castigo da madrasta, como o pão que comemos. Com os olhos postos no mar, há mulheres que esperam e choram quem não volta, mas são também elas que dançam os sonhos e cantam a esperança. Poderão desempenhar submissamente todos os papéis que lhes atribuírem: serão esposas, mães, filhas, namoradas, vítimas, musas, penitentes… sem nunca deixarem de ter um nome e de o reclamar a viva voz.
Como um ser de água, de que toda a vida emerge, a mulher surge, então, com o dom de mundificar e a força para destruir; como o abismo em que se encontra a possibilidade de transcendência; a voz inspiradora da água que corre e impregna; e, enfim, na intimidade da vida que se partilha e distribui, como quem tantas vezes tece com paciência o leito em que correm a tradição e a memória e que nos há-de levar ao que somos.
Como é habitual nos espectáculos gerais do GEFAC, também este combina as diversas vertentes trabalhadas pelo grupo (dança, teatro, música e cantares) para evidenciar, como tema central, a representação da mulher na cultura popular portuguesa. Tornou-se, pois, inevitável, a exploração de uma linguagem cénica fortemente simbólica e essencialmente assente no movimento, bem como na associação de meios audiovisuais, influências e técnicas de teatro, dança e performance contemporânea ao tratamento das músicas e danças tradicionais.
Cada cena foi, pois, elaborada com base na experimentação feita nos ensaios a partir dos materiais, das imagens, ou das ideias que pretendemos transmitir, numa criação colectiva cujo principal objectivo é o de criar um momento de partilha com o público que confirme o valor artístico das manifestações populares enquanto terreno fértil para a criação contemporânea e ponto de encontro numa identidade comum.