14 Maio | QUARTA | 21h30
Local: Teatro da Politécnica
Eu disse AGORA não disse AMANHÃ DEPOIS ONTEM

Processo Criativo
O corpo é a principal matéria. No corpo encontram-se memórias, biografia, ficções, relações, reminiscências. O corpo como conceito. O corpo como carne. O corpo exausto. O corpo cansado. O corpo que compreende, que falha, que ultrapassa, que decide. O corpo como lugar, identidade, pátria. O corpo como revolução, revelação, exposição. O corpo. O corpo do performer. O performer como agente activo de criação. O performer como dramaturgista, cenógrafo, figurinista, produtor, actor, bailarino. O performer estabelece relações pessoais com aquilo que está a produzir artisticamente. O performer é capaz de olhar a realidade de uma forma "extra-real". O quotidiano torna-se onírico. A utopia revela-se uma possibilidade. O performer começa a acreditar em coisas que não acreditava e ri-se disso. O performer fotografa, filma, escreve, lê e relê, sublinha, edita, selecciona, deita fora, volta ao que deitou fora, selecciona, deita fora outra vez, cansa-se, irrita-se, pensa em desistir, regressa, ri-se, surpreende-se, desenha, mapeia, tem dores nas pernas, nos braços, nos pés. O performer avança sem saber porquê mas avança. Avança porque numa determinada altura tem que se avançar. Constrói-se um espectáculo. Procuram-se personae como símbolos perversos, sonhadores capazes de destruir, matéria de violência poética, seres patéticos, organizadores de festas, corpos guerra, corpos apocalipse, corpos eróticos, corpos ridículos, corpos que tentam fazer teatro. O performer tenta fazer teatro desconstruindo o teatro, reescrevendo a história, revelando restos da sua própria história. O performer lê e relê. O performer rouba palavras aos dramaturgos e constrói a sua dramaturgia. Uma dramaturgia que não procura respostas, mas, sim, perguntas. Uma dramaturgia que vive de fragmentos, que corrompe a narrativa, que procura um discurso aberto. O espectador é convidado a criar a sua própria dramaturgia, a estabelecer uma relação livre e pessoal com o espectáculo. O espectáculo na verdade não é um espectáculo, é um encontro, um acontecimento, um momento partilhado, um momento que se pretende inesquecível. Numa época em que facilmente se esquece das coisas, se altera, se modifica, se anula, se deita fora, talvez a Arte seja o último lugar possível do eterno e da memória. O Teatro é um momento indiscutivelmente único. O Teatro enquanto espaço do corpo que se revela através de palavras que expressam intenções. O Teatro que não procura explicações mas intenções. A intenção como motor de criação artística. A intenção como espaço de questionamento. O TEATRO-PERGUNTA e não o TEATRO-RESPOSTA. O Teatro que deambulando pelo ridículo revela o trágico. O Teatro enquanto espaço do EU-ARTISTA. O Teatro como expressão biográfica, ficcional, autobiográfica, "bio-ficcional". O Teatro como Erro. O Teatro como tentativa. O Teatro como REcomeçar, REdescobrir, REpensar, REescrever. O Teatro onde o corpo no encontro com as palavras procura a Dança. O TEATRO REVOLUÇÃO. O TEATRO MANIFESTO. O TEATRO MOTHERFUCKER. O TEATRO DO CORPO. CONFRONTO. Os corpos confrontam-se. Procuro o confronto porque a apatia é insuportável, a preguiça é, acima de tudo, falta de inteligência. Há coisas que me incomodam. Coisas que me emocionam. Coisas que amo. Coisas que perco. Coisas que são segredos. O Teatro como espaço do segredo elevado a grito. Porque é que fazemos Teatro? O que é que procuro no Teatro? Porque é que o Teatro faz sentido? São perguntas às quais procuro responder agindo.

Tiago Vieira